segunda-feira, 12 de maio de 2008

Alexander Kluge




de 13 a 18/5

co-realização: Instituto Goethe de São Paulo

Idade recomendada: 16 anos
retirada de ingressos: uma hora antes de cada sessão
Sala Lima Barreto - entrada franca

Homenagem a Alexander Kluge, um dos principais cineastas alemães da segunda metade do século 20 e um dos fundadores do chamado Novo Cinema Alemão.

dia 13/5 - terça

16h
Despedida de ontem

(Abschied von gestern, 1965/66, P&B, 84min - suporte DVD -legendas em espanhol)
direção e roteiro: Alexander Kluge - elenco: Alexandra Kluge, Günter Mack, Eva Maria Meineke, Hans Korte
Uma jovem é presa ao roubar um pulôver. Após cumprir pena, ela tenta recomeçar sua vida, mas acaba indo para a cadeia novamente. Roteiro baseado na história de Anita G.

18h
Os artistas sob a cúpula do circo: perplexos

(Die Artisten in der Zirkuskuppel: Ratlos, 1968, cor, 103min - suporte DVD - legendas em espanhol)
direção: Alexander Kluge - elenco: Hannelore Hoger, Alfred Edel, Bernd Hoeltz, Siegfried Graue
Leni Peickert se propõe a fundar um circo diferente, mas adia a inauguração ao perceber que seus colaboradores reagem mal à idéia de um circo reformado.

20h
A indomável Leni Peickert

(Die unbezähmbare Leni Peickert, 1967/69, cor e P&B, 33min - suporte DVD - legendas em espanhol)
direção e roteiro: Alexander Kluge - elenco: Hannelore Hoger e outros
Outros empreendimentos da indomável dona de circo Leni Peickert: circo no inverno; encontro com colegas russos; adágios e poemas de sua autoria; luta por espaço na programação da TV.

Ferdinando, o forte

(Der starke Ferdinand,1975/76, cor, 79min - suporte 16mm - legendas em português)
direção: Alexander Kluge - elenco: Heinz Schubert, Verena Rudolph, Gert Günther Hoffmann, Heinz Schimmelpfennig
Ferdinand Rieche, um antigo delegado, é agora chefe de segurança de uma grande empresa química. Aos 50 anos foi expulso da polícia por ter se mostrado muito diligente quando não devia e por não obedecer aos seus superiores.

dia 14/5 - quarta

16h
O grande caos

(Der Grosse Verhau, 1969/70, cor e P&B, 90min - uporte DVD - legendas em espanhol)
direção e roteiro: Alexander Kluge - elenco: Vinzenz e Maria Sterr, Hannelore Hoger, Hark Bohm
A galáxia está tomada pela guerra civil. Entretanto, a Sociedade do Canal de Suez demonstra capacidade de sobrevivência mesmo tendo perdido seu bem original: o Canal. Algumas personagens habitam o cosmo. As histórias relatadas em Processos de aprendizagem com morte no final, originalmente publicadas no livro Unheimlichkeit der Zeit (O caráter inquietante do tempo), de Kluge, dão continuidade ao filme.

18h
Programa de curtas Alexander Kluge
(suporte 16mm - 98min - legendas em português)

Brutalidade em pedra - A eternidade de ontem
(1960, P&B - suporte 12min)
produção, roteiro, montagem e direção: Alexander Kluge, Peter Schamoni
Análise do sistema nacional-socialista, baseando-se em sua arquitetura. Para isso, são utilizadas imagens da "área do partido do Reich", em Nuremberg, e os projetos de um pavilhão de congressos em estilo romano.
Professor em transformação
(1962/63, P&B, 11min)
produção, roteiro, montagem e direção: Alexander Kluge
Três professores do período nazista servem de pretexto para o diretor refletir sobre uma "Educação sem perspectivas".
Retrato de quem deu certo
(1964, P&B, 10min)
roteiro e direção: Alexander Kluge
História de um ex-policial oportunista, que serviu a seis governos e "sempre se deu bem".
A Sra. Blackburn, nascida em 5 de janeiro de 1872, é filmada
(1967, P&B, 14min)
roteiro e direção: Alexander Kluge
Primeiro filme de Kluge sobre um membro de sua própria família. A Sra. Blackburn, 95 anos, é a sua avó. Kluge permite que ela conte e improvise, e introduz uma pequena ação narrativa.
Bombeiro E. A. Winterstein
(1968, P&B, 11min)
roteiro e direção: Alexander Kluge
Trata-se de um filme totalmente confuso, realizado com material documentário e restos do filme Despedida de ontem. Uma colagem de associações e montagens.
Notícias dos Staufer
(1977, cor e P&B, 40min)
roteiro e direção: Alexander Kluge e Maximiliane Mainka
Realizado durante a grande exposição dos Staufer, em Stuttgart. O material é usado por Kluge para demonstrar a tese de que os alemães, em sua história milenar, sempre se agarram à esperança de um "salvador".

20h
Willi Tobler e a queda da 6ª frota

(Willi Tobler und der Untergang der 6. Flotte, 1971, cor e P&B, 78min - suporte DVD - legendas em espanhol)
direção: Alexander Kluge - elenco: Alfred Edel, Helga Skalla, Hark Bohm, Kurt Jürgens
Guerra civil galáctica, final de 2040. Depois de um bombardeio cósmico, Willi Tobler resolve se desvencilhar de todos os seus bens e de todos os propósitos e virtudes. Livre de responsabilidade, ele quer agora cuidar da própria segurança e oferece seus serviços a um almirante sideral. Recebe o posto de porta-voz de imprensa da 6ª frota, mas seu engajamento torna-se uma armadilha.

dia 15/5 - quinta

16h
Trabalho ocasional de uma escrava

(Gelegenheitsarbeit einer Sklavin, 1973, P&B, 91min - suporte DVD - legendas em espanhol)
roteiro e direção: Alexander Kluge - elenco: Alexandra Kluge, Bion Steinborn, Franz Bronski, Sylvia Gartmann
Roswita Bronski dirige uma agência clandestina de aborto. Quando o lugar é fechado pela polícia, ela se torna uma ativista política na fábrica onde seu marido trabalha e ele acaba sendo despedido por causa disso. Ela começa, então, a distribuir panfletos políticos, num quiosque na frente da empresa.

18h
O poder dos sentimentos

(Die Macht der Gefühle, 1983, P&B e cor, 115min - suporte 16mm - legendas em português)
direção: Alexander Kluge - elenco: Hannelore Hoger, Alexandra Kluge, Edgar Boehlke, Barbara Aver
Em pequenas histórias, Kluge mostra o poder e o efeito dos sentimentos utilizando colagem de imagens e sons. Ele tenta transmitir ao espectador a dialética do comportamento humano regido por sentimentos.

20h
Em caso de perigo e grande risco, o meio-termo leva à morte

(In Gefahr und größter Not bringt der Mittelweg den Tod, 1974, P&B, 90min - suporte 16mm - legendas em portugues)
roteiro e direção: Alexander Kluge - elenco: Dagmar Bödderich, Jutta Winkelmann, Norberg Kentrup, Kurt Jürgens
Em Frankfurt, a polícia realiza uma violenta desocupação de casas, em pleno carnaval. Desabrigadas, duas mulheres perambulam pela cidade: uma garota de programa e ladra e uma espiã da Alemanha Oriental.

dia 16/5 - sexta

16h
Ferdinando, o forte

(Der starke Ferdinand,1975/76, cor, 79min - suporte 16mm - legendas em português)
direção: Alexander Kluge - elenco: Heinz Schubert, Verena Rudolph, Gert Günther Hoffmann, Heinz Schimmelpfennig
Ferdinand Rieche, um antigo delegado, é agora chefe de segurança de uma grande empresa química. Aos 50 anos foi expulso da polícia por ter se mostrado muito diligente quando não devia e por não obedecer aos seus superiores.

18h
A patriota

(Die Patriotin, 1979, P&B e cor, 121min - suporte 16mm - legendas em português)
roteiro e direção: Alexander Kluge - elenco: Hannelore Hoger, Dieter Mainka, Alfred Edel, Kurt Jürgens
A professora Gabi Teichert busca as raízes da História alemã. É preciso descobri-la se não quisermos ser mortos por ela. Alexander Kluge passa em revista a história alemã. Uma colagem bem-humorada, que também deixa espaço para o sonho e a fantasia.

20h
Alemanha no outono

(Deutschland im Herbst, 1978, cor e P&B, 119min - suporte DVD - legendas em espanhol)
direção: Alexander Kluge, Volker Schlöndorff, Rainer Werner Fassbinder, Alf Brustellin, Bernhard Sinkel, Katja Rupe, Hans Peter Closs, Edgar Reitz, Maximiliane Mainka, Peter Schúbert - elenco: Rainer Werner Fassbinder, Armin Meier, Liselotte Eder, Hannelore Hoger
Outono de 1977. Um filme coletivo que é uma continuação coerente do filme de autor. Ele mistura temperamentos, aglutina forças e põe em marcha vários outros filmes (na seqüência, Fassbinder filmou A terceira geração, e eu, A patriota).

dia 17/5 - sábado

16h
Guerra e paz

(Krieg und Frieden, 1982/83, 118min - suporte DVD - legendas em espanhol)
direção: Alexander Kluge, Stefan Aust, Axel Engstfeld, Volker Schlöndorff
Em 1945, se a guerra na Europa não tivesse acabado em maio, mas só em agosto, a bomba atômica poderia ter sido lançada não sobre Hiroshima, mas sobre Berlim (Valentin Falin). O tema é a marcha dos 300 mil manifestantes que foram a Bonn protestar. Ao final do processo, caiu o primeiro-ministro Helmut Schmidt, em razão da crise na esfera pública, que abalava o país.

18h
Notícias variadas

(Vermischte Nachrichten, 1986, 103min - suporte DVD - legendas em espanhol)
roteiro e direção: Alexander Kluge - elenco: Jutta Hoffmann, Armin Mueller-Stahl, Michael Rehberg, Rosel Zech
Nos jornais antigos, as notícias variadas podiam ser encontradas na última página. Sem tanta vigilância editorial, retratavam todo tipo de história, como a do filho que protege a mãe com uma arma, um caso de canibalismo em Stalingrado ou a recepção oferecida por Honnecker no dia em que a lei marcial foi imposta na Polônia.

20h
O candidato

(Der Kandidat, 1980, cor, 124min - suporte DVD - legendas em espanhol)
direção: Stefan Aust, Alexander Kluge - elenco: Wolf Biermann, Karl Carstens, Edmund Stoiber, Franz Joseph Strauss
Por ocasião da candidatura de Franz Josef Strauss ao posto de primeiro-ministro, Volker Schlöndorff, Stefan Aust e Alexander Kluge se reúnem para realizar mais uma produção conjunta. O filme retrata a campanha eleitoral e questões da esfera política.

dia 18/5 - domingo

16h
O ataque do presente contra o restante do tempo

(Der Angriff der Gegenwart auf die übrige Zeit, 1985, cor, 113min - suporte 16mm - legendas em português)
roteiro e direção: Alexander Kluge - elenco: Jutta Hoffmann, Armin Mueller-Stahl, Rosel Zecy, Alfred Edel
O filme mostra pessoas que se tornaram superficiais, chefes apressados e pessoas que detêm o poder, mas não têm tempo de exercê-lo. Várias histórias que abordam questões relacionadas à utilização do tempo no século 20.

18h
Serpentine Gallery Program 1995 - 2005
(suporte DVD - 52min - legendas em espanhol)

Ich War Hitlers Bodyguard
(2000, 45min)
O perfil de Manfred Pichota aparece em vários documentos históricos. O que ele pode dizer sobre isso?
Minutenfilme
(2006, 7min)
Fragmentos de programas televisivos.

20h
O poder dos sentimentos

(Die Macht der Gefühle, 1983, P&B e cor, 115min - suporte 16mm - legendas em português)
direção: Alexander Kluge - elenco: Hannelore Hoger, Alexandra Kluge, Edgar Boehlke, Barbara Aver
Em pequenas histórias, Kluge mostra o poder e o efeito dos sentimentos utilizando colagem de imagens e sons. Ele tenta transmitir ao espectador a dialética do comportamento humano regido por sentimentos.


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Ao som de Lee Morgan - Mr Kenyatta

domingo, 11 de maio de 2008

Quando a Arte é oxigênio.







O cineasta (“O Maior”, segundo Ingmar Bergman) premiado em Cannes com “O Sacrifício” fala do Exílio e da arte na URSS.


O nome de Andrei Tarkóvski certamente não diz muita coisa para o grande público. Sabe-se dele, por conta do prêmio de júri em Cannes para o seu filme “O Sacrifício, que é u m cineasta russo dissidente em luta contra o câncer. Para Ingmar Bergman ele é ‘o maior, o que inventou uma nova linguagem, bem de acordo com a natureza do cinema, já que captura a vida como um reflexo, como um sonho”. No Brasil, os cinéfilos conhecem pelo menos dois trabalhos de Tarkóvski, ambos próximos da ficção científica, mas sem o frenesi tecnológico que domina o gênero: Solaris também premiado pelo júri de Cannes em 1972 e que muitos viram como uma resposta do Leste ao 2001 de Stanley Kubrick; e Stalker , de 1979, que o público elegeu o melhor filme de recente Mostra Internacional de Cinema, no Museu de Arte de São Paulo.


Há quem, a exemplo de Bergman, considere Tarkóvski o maior cineasta russo vivo - um conceito reforçado pelo caráter de seus filmes, muito pessoais e poéticos, que não fazem concessões nem aos apelos de bilheteria fácil nem às imposições dos burocratas soviéticos. A vida, e tudo o que ela contém de contraditório e absurdo – é a matéria prima desse homem de cinema obcecado pela busca da beleza e do inesperado. Há um ano Andrei Tarkóvski optou pelo exílio e foi morar na Itália, onde já havia realizado um filme em 1983 – Nostalgia – a convite da RAI (Rádio e Televisão Italiana) e autorizado pelos burocratas soviéticos. O Sacrifício, premiado este ano em Cannes, foi filmado na Suécia, com apoio do Ministério da Cultura da França. Nesta entrevista à VISÃO, Andrei Tarkóvski explica as razões que o fizeram deixar a União Soviética.


Tarkóvski - Depois que Nostalgia ficou pronto e foi exibido em Cannes, escrevi uma carta às autoridades do cinema em Moscou e até ao Comitê Central do partido, e a Constantin Chernenko, que estava lá na ocasião, pedindo permissão para ficar trabalhando mais três anos no exterior e para que meu filho Andrei e minha sogra viajassem ao meu encontro - minha esposa já estava comigo. Durante este período eu faria um filme e depois voltaria para casa. Esperei anos por uma resposta.


Edelhajt – Sua decisão foi influenciada pelo desejo de trabalhar em condições melhores, livre de restrições e pressões a que estava sujeito?


Tarkóvski – Não, absolutamente. Não dependo de ninguém e sempre fiz os filmes do jeito que queria. Por isso, talvez, nunca fiquei rico com o cinema, o que para mim também não tem a menor importância. A minha decisão de não voltar à União Soviética não significa que eu considere o mundo e as idéias divididos em dois campos diferentes. Somente os idiotas fazem este tipo de distinção entre as pessoas do ocidente e as do Oriente.


Edelhajt - No filme “Nostalgia” há uma cena em que o poeta, questionado, declara com amargura: “E o que você sabe da Rússia? Você não sabe nada.” Esta é uma reação típica de alguém do Leste, principalmente da Rússia. Mas é, também, reveladora de todos os complexos que os Europeus do Leste têm em relação ao resto do mundo.


Tarkóvski – As palavras do poeta são minhas palavras. Quanto mais eu vivo no Ocidente, mais estou convencido, ainda que isso possa parecer ridículo; o que as pessoas sabem realmente da Rússia?


Edelhajt – “E o que as pessoas deveriam saber”?


Tarkóvski – Não sei. É algo que é preciso sentir. O que quero dizer é que, se a Rússia representa uma ameaça para o mundo hoje, também representa uma forma de esperança – e isso não tem nada a ver com a política nem com o comunismo. A esperança está na enorme força espiritual do povo russo, que desempenhará importante papel na evolução geral da civilização no futuro. E isso não tem nada a ver com nenhum processo político. É um fenômeno espiritual.


Edelhajt – As autoridades em Moscou nunca aceitaram seus filmes, quer pela sua forma, quer pelo seu conteúdo...


Tarkóvski – Mas não é por isso que meus filmes desagradam às autoridades. Elas percebiam que havia algo de fundamentalmente inaceitável em meus filmes, mas nunca puderam pôr as mãos neles. Sabe por quê? O que perturbava as autoridades soviéticas não era nem os conteúdos nem as idéias dos filmes, e sim o aspecto artístico em si. Elas recusam-se a aceitar que a arte em sua forma pura, possa existir. E o que torna a arte poderosa não são as idéias que ela transmite – as pessoas que acreditam nisso estão enganadas e são, em geral, visionárias. O que torna a arte poderosa é, exatamente, o fato de ser arte, a manifestação de um fenômeno indefinível que resiste às prescrições da vontade humana e dos sistemas sociais.


Edelhajt – Há dez anos o diretor soviético Boris Barnet suicidou-se e, depois, houve o caso de Sergei Paradzhanov (diretor de “Cavalos de Fogo”, exibido no Brasil), que passou anos na prisão. Casos como esses não são comuns no cinema russo?


Tarkóvski – Nesta vida, se paga por tudo o que se faz, depois de sair da prisão, Paradzhanov fez m filme e começou agora outro. Quanto ao suicídio de Barnet, respondo dizendo que também no Ocidente o número de suicidas não é desprezível. Portanto seria ingênuo tirar conclusões destes dois casos específicos ou tirar daí alguma teoria. Mas voltando a falar de arte, de cinema, observo que no ocidente a arte parece menos essencial do que é para nós. Aqui, somente o sucesso financeiro parece dar uma razão suficiente para viver. O que quero dizer é que na Rússia a vida sem alguma forma de consciência espiritual parece absolutamente impensável.


Edelhajt – Será esta uma das características das nações cujo povo não goza de liberdade individual? E, desculpe, não há nessa pergunta nenhum sentido pejorativo...


Tarkóvski – Não sei. Talvez.


Edelhajt – Na Rússia e estados vizinhos criam-se mitos e as pessoas aceitam com facilidade tudo o que possa compensar ou substituir as liberdades fundamentais que perderam...


Tarkóvski – Não é isso que eu queria dizer. Não estava pensando na arte oficial, aquela que é permitida. Estava pensando na arte em geral, no significado e na missão da arte. Em Leningrado, há um jovem diretor, Alexander Sokúrov, que é um verdadeiro gênio. Ele conseguiu concluir um filme que, normalmente, seria condenado a nunca ver a luz do dia e sequer a ser filmado. Terminada a montagem, as autoridades, suspeitando que o filme não fosse adequado à exibição pública, exigiram uma cópia. Sokúrov recusou e ameaçou pular da janela junto com a cópia caso elas tentassem obtê-la pela força. As autoridades propuseram então que o filme fosse exibido normalmente e ele aceitou. Resultado: Sokúrov nunca mais viu a cópia do seu filme. Com isso quero dizer o seguinte: aqui, no Ocidente, a arte é um prazer; lá, é oxigênio.



Observações: Bem, aqui vai mais uma entrevista do Andrei Tarkóvski. Eu tirei esta entrevista do livro do CEDUC Vídeo 101, um volume específico sobre o Stalker do cineasta em questão. Este livro encontra-se na Biblioteca da PUC/SP. Esta entrevista, originalmente, fora publicada na revista VISÃO de 18/06/1986.

Ao som de Art Davis – Add.

quarta-feira, 30 de abril de 2008

Mostra: Eterno Enquanto Durou

de 05 a 16 de maio


Não se sabe bem quando, nem onde tudo começou, talvez Freud explique, mas fato é que desde os tempos mais remotos uma das grandes preocupações do Homem é a de encontrar um alguém, um par com quem possa dividir suas angústias e seus prazeres, um amor. Sob diferentes olhares esse tema foi retratado infinitas vezes em todas as áreas artísticas. No caso do cinema não seria diferente.

Já no início do período clássico temos centenas de obras cujo tema principal é o amor e sua trajetória até o Happy End, momento em que os “pombinhos” se casam e vivem “felizes para sempre”. Essa estrutura característica dos romances burgueses do século XIX foi apropriada pelo cinema quase que no mesmo instante em que este se tornou narrativo. Trabalhada nos mais diversos gêneros, esse modelo consagrou-se dominando o imaginário popular. É interessante notar que assim o cinema acabou por reforçar a visão idealizada sobre o casamento dentro dos ideais judaico-cristãos.

No entanto, não demorou para que surgissem filmes cuja narrativa iria na direção oposta. O cinema moderno, recusando-se a enxergar o amor por essa ótica idealizada, apresentou uma proposta mais crua e complexa desse fenômeno que é a vida a dois. Essa é justamente a proposta da presente mostra do CINUSP “Paulo Emílio”, trazer à tona obras que problematizam a relação amorosa.

SINOPSES

Amor à Tarde (Amour l'après midi)

Direção: Eric Rohmer

País/Ano: França / 1972 - Duração: 97 minutos - Cor , 35mm

Elenco: Bernard Veley, Zouzou, Françoise Verley, Daniel Ceccaldi

Frédéric e Hélène são casados e levam uma pacata vida burguesa. Frédèric considera-se muito feliz ao lado da esposa, porém sonha acordado, todas as tardes, com outras mulheres, nunca cogitando concretizar seus sonhos. Em uma ocasião, conhece Chloe, que passa a visitá-lo no trabalho constantemente. À medida que Chloe tenta seduzir Frédèric, ele se encontra em meio a um dilema moral: trair ou não Hélène?

Domicílio Conjugal ( Domicile Conjugal)

Direção: François Truffaut

País/Ano: França / 1970 - Duração: 100 minutos - Cor, 35mm

Elenco: Jean-Pierre Léaud, Claude Jade, Hiroko Berghauer, Barbara Laage

Antoine e Christine são casados e vivem tranquilamente em Paris, após o nascimento do filho. Antoine começa a trabalhar em uma empresa, quando conhece Kyoto, uma jovem que se apaixona por ele. Kyoto seduz Antoine e Christine descobre a traição. Antoine vai morar com Kyoto, porém a relação se desgasta e Antoine tenta de todas as maneiras obter o perdão de Christine. Antoine sempre visita o filho e começa a se reaproximar de Christine.

5 x 2 – Amor em Cinco Tempos (5 x 2)

Direção: François Ozon

País / Ano: França / 2006 - Duração: 86 min - Cor, 35mm

Elenco: Valeria Bruni, Tadeschi, Stephane Freiss, Geraldine Pailhas

Todas as etapas do relacionamento de Marion e Gilles são apresentadas em cinco seqüências, partindo do divórcio até chegar ao momento em que os dois se conheceram. Ozon realiza um filme sobre o Amor: seu fim e início.

Eu sei que vou te amar

Direção: Arnaldo Jabor

País / Ano: Brasil / 1987 - Duração: 115 minutos - Cor, DVD

Elenco: Fernanda Torres, Thales Pan Chacon

Casal se reencontra após um ano de separação. Trancados em um apartamento, começam a remoer o passado e a descobrir as mentiras que um contava ao outro quando estavam juntos. As máscaras caem, surgem outras durante as discussões. A sessão de análise do casal é permeada pela atração e o amor que ainda resta um pelo outro.

Cenas de um casamento Parte I e Parte II ( Scener ur ett äktenskap)

Direção: Ingmar Bergman

País / Ano: Suécia / 1974 - Duração: 299 minutos - Cor , DVD

Elenco: Liv Ullmann, Erland Josephson, Bibi Andresson, Jan Malmsjö

Marianne e Johan são casados e possuem uma vida tranqüila. Certo dia, Johan diz a Marianne que vai embora pois está apaixonado por uma jovem de 23 anos. Os dois se separam, Johan sai do país. Meses depois, Johan rompe seu relacionamento com a jovem e retorna à Suécia, onde Marianne encontra-se em outro relacionamento. Johan e Marianne passam a manter encontros às enscondidas, mantendo sua cumplicidade.

A Noite ( La notte)

Direção: Michelangelo Antonioni

País / Ano: França, Itália / 1961 - Duração: 122 minutos - P&B , 35mm

Elenco: Jeanne Moreau, Marcello Mastroianni, Bernhard Wicki, Monica Vitti

Lídia e Giovanni refletem sobre seu casamento em uma noite de festas, andanças, encontros, flertes e traições.

A Estrada (La Strada)

Direção: Frederico Fellini

País / Ano: Itália / 1954 - Duração: 104 minutos - P&B , 35mm

Elenco: Giuletta Masina, Richard Baseheart, Anthony Quinn, Aldo Silvani

Gelsomina, jovem sonhadora e doce é vendida para Zampano, homem rude e amargo. Os dois viajam apresentando-se em várias cidades e Gelsomina passa a ajudar nos números de Zampano. Na estrada, em alguma de suas andanças, conhecem um equilibrista, que muda a vida dos dois.


GRADE DE PROGRAMAÇÃO


Segunda

05/05

Terça

06/05

Quarta

07/05

Quinta

08/05

Sexta

09/05

16h

Eu sei que vou te amar

5 x 2

A Noite

A Estrada

A Noite

19h

A Noite

Cenas de um casamento Parte I

5 x 2

Cenas de um casamento

Parte II

A Estrada


Segunda

12/05

Terça

13/05

Quarta

14/05

Quinta

15/05

Sexta

16/05

16h

Cenas de um casamento Parte I

Eu sei que vou te amar


Cenas de um casamento

Parte II

Amor à tarde

Domicílio Conjugal

19h

Amor à tarde


Domicílio Conjugal


Eu sei que vou te amar


Domicílio Conjugal


Amor à tarde

UNIVERSIDADE DE SÃO PAULO

Pró-Reitoria de Cultura e Extensão Universitária – PRCEU

CINUSP “Paulo Emílio”

Rua do Anfiteatro, 181 – colméia favo 37 (administração) – Favo 04 (projeção)

www.usp.br cinusp@edu.usp.br

Fones: 3091-3540/3152 - fone/fax: 3091-3364

Entrada Franca - 100 lugares

Som Dolby Stéreo

segunda-feira, 4 de fevereiro de 2008

Mãe e Filho - Alexander Sokúrov



"No meu entender... as pessoas vivem sem nenhum propósito específico. Mas morrem por um propósito específico” diz o filho à mãe. Sem dúvida, no século XX, muitos morreram pelos mais diversos propósitos.

O sentido último da vida é a vida em si e suas contradições insolúveis, a natureza e seus ciclos; a mãe que guiou o filho ao mundo, o filho que acompanha a mãe em sua agonia, o esforço doloroso de cada um em seus momentos mais importantes, não há nada mais importante e belo.

Obviamente, como não parece sê-lo a princípio, o trabalho deste cineasta tem um objetivo bem definido (e que não é a morte). Sokúrov, assim como a grande tradição “espitirualista” russa, é um crítico ferrenho de nossa contemporaneidade, nossa vida mecânica, agitada e cada vez mais desencantada. Como não poderia deixar de ser, surge aqui uma questão importante; que filhos hoje passam junto aos pais os minutos finais das vidas destes? Estamos cada dia mais condenados a uma morte asséptica em unidades de tratamento intensivo acompanhados por profissionais que muitas vezes ao menos sabemos o nome, pessoas as quais não sabemos que pratos preferem, do que não gostam de comer, se roncam quando dormem, ou se tem cócegas nos pés, ou se preferem a primavera ou o inverno...

A morte ideal (por que não a vida ideal?!) é aquela orgânica, fundida à natureza, mãe última a qual o homem deveria estar ternamente ligado, cercado por aqueles que carregam do mesmo sangue ou uma profunda simpatia espiritual, não aquela entre profissionais pagos para isso. Seria cômico, se não trágico, uma enfermeira esperando que um paciente morra depois do término de seu expediente, para lhe "poupar os nervos"...

A perfeita expressão dos anseios do artista encontra-se na beleza da imagem artística por este criada, para a qual categorias como forma e conteúdo tornam-se apenas categorias formais vazias de sentido e de vida; a arte busca pela verdade - não pela verdade científica ou teológica - busca por uma verdade que é até ultima instância, e apesar de tudo e de todos, bela. Neste ponto, ético e estético também tornam-se categorias sem sentido, pois fundem-se organicamente.



Em minha opinião a perspectiva inovadora – faço referência á plasticidade dos planos – esta que não é gratuita, pois como diria Tarkovski, um companheiro que precedeu Alexander; “Tudo o que há de novo na arte surgiu em resposta a uma necessidade espiritual”. O anseio de Sokúrov por aquilo que nos faz efetivamente humanos o levou a uma “deformação” do visual, tal como o vivenciamos no dia a dia, de modo a criar uma imagem artística organicamente viva e de extrema beleza, mesmo que moribunda e mórbida...

As constantes afirmações e comparações com as obras de pintores não fazem juz ao talento de Sokúrov.

Por outro lado, um pensamento vem me acompanhando, e acentuou-se enquanto assistia ao filme. Alguns artistas buscam os limites de sua arte e o que a distingue das outras, o próprio Tarkovski o faz durante seu livro todo, sempre dizendo que o cinema ainda não encontrara sua linguagem e que ele precisaria se distanciar e se libertar das outras artes, como a literatura, o teatro e a música[1], talvez, o que Tarkovski não tenha percebido – não sei sobre Sokurov - é que o que eles talvez buscaram e busquem seja algo como uma arte total, talvez seja esta a vocação do cinema, como a Arte Monumental de Kandinsky, não é pintura, não é música, literatura ou poesia, me pergunto – com uma provocação - seria cinema?



[1] Fato muito interessante é o fato de Tarkovski escrever um livro que se chama “ESCULPIR o Tempo”, tomando emprestado da escultura um termo que definiria a arte cinematográfica.


segunda-feira, 17 de setembro de 2007

Mostra Paulo Emilio: Uma Homenagem



17 a 28 de setembro no CINUSP

Paulo Emilio Salles Gomes (1916-1977) foi escritor, crítico e professor de cinema da Universidade de São Paulo. Fundou o Clube de Cinema da Faculdade de Filosofia da USP nos anos 40, foi o responsável pela direção da filmoteca do MASP (que depois se transformaria na Cinemateca Brasileira) e organizou o primeiro curso de cinema no Brasil, em 1965, na Universidade de Brasília. Considerado um divisor de águas do pensamento cinematográfico no Brasil, Paulo Emilio configura-se como uma fundamental referência para a reflexão crítica da produção audiovisual brasileira.

Sabemos que, quando se torna muito técnica e específica, a crítica de arte corre o risco de apagar a riqueza da experiência artística, desvinculando-a da vida. Na crítica cinematográfica não devemos nos ater somente à técnica pela técnica, sem nos questionarmos como essa também se insere em um universo maior, ou seja, como ela se relaciona com a cultura, com a criatividade artística, e em última instância, com a própria vida. É justamente nessa forma de análise que se destaca Paulo Emilio. Suas críticas possuem um caráter subjetivo essencial e, de maneira muito fluída, envolvem todo o seu universo cultural, deixando vir à tona os próprios sentimentos que o cinema lhe proporciona.


É com o objetivo de reviver a crítica de Paulo Emilio, tão importante à história do cinema nacional, que a mostra “Paulo Emilio: Uma Homenagem” se faz pertinente neste ano em que se relembram os 30 anos de seu falecimento. Revisitar a sua crítica é, antes de tudo, reviver pontos altos da história do cinema através de um olhar profundo e sensível.



Sinopses e Trechos das Críticas de Paulo Emílio Salles Gomes


Paulo Emílio (Brasil - 1981) Dir. Ricardo Dias 1

Duração: 20 min. 35mm

Documentário de curta-metragem sobre Paulo Emílio, o filme evoca o contato do professor de Cinema Brasileiro com seus alunos e reconstitui situações de aula.

Tesouro Perdido (Brasil - 1927). Dir. Humberto Mauro.

Duração: 56 min. 16mm

Sinopse: É um filme mudo sobre os desencontros de dois irmãos criados órfãos de pai. Ao completarem a maioridade, cada um recebe a metade de um mapa de tesouro.

“A barreira de degradação fotográfica, que habitualmente se antepõe entre O Thesouro Perdido e o espectador atual, é aqui vencida pelo frescor das imagens que exprimem, além da natureza, algo de muito profundo em Humberto Mauro, um elemento muito preciso de sua personalidade que só bem mais tarde será dado conhecer melhor.” [...]

“A única coisa imperdoável de O Thesouro Perdido é o enredo.[...] O tesouro de O Thesouro Perdido parece imposto de fora com a intenção de dar importância e dramaticidade ao dia-a-dia trivial de uma humanidade comum, O conflito é importado de longe como se no ambiente bucólico para onde é transplantado não houvesse condições para a eclosão de qualquer luta: não é por acaso que em O Thesouro Perdido o tesouro acaba por ser rejeitado em benefício da permanência de valores extremamente convencionais mas artisticamente coerentes.” (EMILIO, P. Humberto Mauro, p.145 e p. 160, Cataguases, Cinearte. São Paulo, Perscpectiva, 1974)

Oharu – A Vida de uma Cortesã (Japão – 1952). Dir. Kenji Mizoguchi

Duração: 148 min. 16mm

Sinopse: Conta a história de Oharu, uma mulher que na sua juventude fazia parte da corte do Imperador, porém, por envolver-se com um homem de condições inferiores, sua vida muda, terminando como pedinte e cortesã.

“Só conheço bem um filme de Kenji mizoguchi, A Vida de O’Haru, mulher galante, e apesar de não o rever há cinco anos, não empalideceu a lembrança de seu esplendor plástico em branco e preto. Teoricamente é uma obra que teria muito contra si. Seu roteiro é constituído por uma meia dúzia de episódios bastante autônomos, tirados de um autor do século XVII, Ihara Saikaku. Além desse desafio à unidade, a história concentra na personagem principal, a mulher galante, um excesso de desgraças com intensidade excessiva e gosto duvidoso. Mas todos os defeitos potenciais de construção ou concepção são eclipsados pela qualidade intrínseca das imagens, por sua beleza de todos os instantes. A técnica de Mizoguchi consiste em conservar a câmera fixa por bastante tempo e fazer tomadas as mais longas possíveis, afim de dar o máximo de oportunidade aos meios de percepção do espectador. ‘Um filme’, declarou Mizoguchi, ‘deve ser outra coisa além da simples expressão psicológica’. Em última análise ele procura dar ao cinema os famosos ‘valores tácteis’, que Berenson considera a maior virtude da pintura.” (EMILIO, P. Crítica de Cinema no Suplemento Literário, pp.180-81, Rio de Janeiro, Paz e Terra/ Embrafilme, 1982. 2vols.)


O Portal do Inferno. (Japão – 1953). Dir. S. Kinogasa

Duração: 89 min. 16mm

Sinopse: Na era Heian (794-1185), em meio à disputa entre inimigos do imperador e seus defensores, um samurai insiste em conquistar uma mulher casada.

“Ele [Kinugasa] não acredita na sincronização do som e da imagem. Essa deveria ser tratada como no cinema mudo, sendo função do som inculcar-lhe poesia e sentimento. O ideal de Kinugasa é realizar um dia um filme que seria a história de um homem vivendo à beira de um rio, cuja vida seria contada unicamente pelos temas dos sons. Essa idéia situa bem as preferências estéticas do realizador. Um filme deve ser uma variação de detalhes da natureza, de luzes, de sons, uma espécie de fuga de sensações em torno de um tema que em si mesmo não teria maior importância. Se Kinugasa nunca pode alcançar plenamente esses objetivos, por motivos comerciais evidentes, ele procura sempre deles aproximar-se. O rigoroso classicismo de A Porta do Inferno, que provocou tanta admiração no Ocidente e desconcertou o público japonês, foi até hoje a expressão máxima de fidelidade de Kinugasa a seus princípios estéticos.” (EMILIO, P. Crítica de Cinema no Suplemento Literário, v.1, p. 182, Rio de Janeiro, Paz e Terra/ Embrafilme, 1982. 2vols.)

Noites de Cabíria (Itália – 1967) Dir. Federico Fellini

Duração: 110 min. 35mm

Sinopse: Esta obra de Fellini conta a história de Cabíria, uma prostituta de Roma que sonha em se casar e deixar a vida que leva, mas é obrigada a viver na marginalidade.

“Basicamente, o método do Fellini maduro e criador não é diferente do seu comportamento durante a irresponsável vagabundagem da juventude em Rimini. Num caso como no outro, ele solicita confusamente ao acaso esses momentos de aderência entre a fantasia e o concreto que são o ponto de partida de sua elaboração artística, isto é, de seu esforço pungente em dar forma e comunicação ao mundo dos valores espirituais e paramísticos que agitam o seu espírito.”

“Na realidade, a graça consiste na descoberta dentro de si próprio daquilo que permaneceu inato no meio das erosões provocadas pelo ato de viver e nada indica que as cerimônias religiosas sejam particularmente favoráveis à sua eclosão. Cabíria é fundamentalmente pura e não é numa romaria religiosa que a graça se manifesta mas no palco de um teatro de última classe, sob a ação de um mágico, diabo envelhecido e decadente. Essa seqüência é talvez a mais extraordinária de toda a obra felliniana.” (EMILIO, P. Crítica de Cinema no Suplemento Literário, v.1, p.436 e p.441, Rio de Janeiro, Paz e Terra/ Embrafilme, 1982. 2vols.)

De Crápula a Herói (Itália - 1959) Dir. Roberto Rossellini

Duração: 126min. DVD

Sinopse: Durante a Segunda Guerra, um general impostor aproveita-se de seus compatriotas prometendo-lhes interceder a favor de seus familiares capturados por alemães. Quando sua farsa é descoberta o general é preso, porém, para se livrar da pena, aceita colaborar com a Gestapo.

“Il generale della Rovere [De crápula a Heró] persegue deliberadamente um triunfo de bilheteria. Mas nada disso impede que à luz das preocupações mais íntimas de Rossellini a sua última fita exprima o prolongamento harmonioso de uma meditação presente em toda sua obra. Minhas referências apóiam-se naturalmente nos filmes que conheço melhor, Paisà, Fracesco, L’amore e Europa 51, e em todos eles palpita a busca ansiosa de uma verdade de vida, de uma autenticidade moral. Em Il generale della Rovere a natureza da reflexão continua a mesma, porém desta vez através de algumas minuciosas descrições do funcionamento da mentira.”

“A mentira tem má reputação, mas é uma grande desconhecida. Um dos méritos de Il generale della Rovere é propor tarefas nesse terreno para as imaginações críticas. Crápula ou herói, a base do comportamento do principal personagem da fita é sempre a mentira. A prática do bem e do mal tem em comum um suporte de ficção.” [...]

“Acredito que uma reflexão metódica com ponto de partida em ilustrações fornecidas pelo filme poderia conduzir a uma avaliação mais justa do papel da mentira na constituição de uma realidade civilizada. São tantas as ocasiões em que a única forma de comunicação entre os seres é o exercício da mentira, seu papel como estofo, cimento e válvula é tão eminente que se torna impossível imaginar o mundo sem sua presença harmonizadora. Não há conflitos entre a mentira e a verdade. Elas são complementares e nada se acorda tão bem com a serena mentira como doses mitigadas de seu contrário.” (EMILIO, P. Crítica de Cinema no Suplemento Literário, v.2, pp.241-42, Rio de Janeiro, Paz e Terra/ Embrafilme, 1982. 2vols.)

P. E. Salles Gomes (Brasil - 1979) Dir. David E. Neves

Duração: 35 min. 16mm

Feito para a televisão educativa, este documentário apresenta trechos de filmes nacionais e estrangeiros e os ilustra com comentários do crítico Paulo Emílio. Contém ainda depoimentos de Décio de Almeida Prado, Antonio Candido, Jean-Claude Bernadet e outros.

O Grande Ditador (Estados Unidos - 1940) Dir. Charles Chaplin

Duração: 124 min. 35mm

Sinopse: Primeiro filme falado de Chaplin, nele Carlitos vive dois personagens: o ditador Adenoid Hynkel (numa referência óbvia a Hitler) e um barbeiro judeu, que acidentalmente é confundido com o chefe de Estado.

“A personagem de Chaplin na tela sofreu variações profundas com o decorrer do tempo. Os freqüentadores de retrospectivas se surpreendem, às vezes, em conhecer um Carlitos violento, mau e vulgar. [...] Ele afirma e impõe seus desejos e caprichos. Apesar das aparências, o Carlitos do futuro guardará muito desses traços, particularmente uma constante rebeldia potencial contra as convenções e pressões do mundo exterior. No Carlitos clássico, a vontade de poder se dilui numa aparente submissão e a crueldade se esconde atrás de uma covardia calculada. [...] Mas a crítica, André Bazin em primeiro lugar, reconhece facilmente a presença dos dois Carlitos, dissociados, em O Grande Ditador. E os empreendimentos macabros de Verdoux evocam, apesar da impecável elegância, a distante fúria do Carlitos dos primeiros tempos.” (EMILIO, P. Crítica de Cinema no Suplemento Literário, v.1, p.212, Rio de Janeiro, Paz e Terra/ Embrafilme, 1982. 2vols.)

A Regra do Jogo (França – 1939) Dir. Jean Renoir

Duração: 110 min. DVD

Sinopse: Um influente parisiense promove uma festa em sua casa de campo. Alheia aos problemas do mundo, a rotina da burguesia francesa será mudada de repente.

“La régle du jeu [A Regra do Jogo], a última fita francesa [de Renoir] antes da partida para os Estados Unidos, fora distribuída algumas semanas antes do início da guerra, diante da mais total incompreensão da crítica e do público, no qual se incluía o autor deste artigo. Durante os anos da guerra conservei na memória apenas a seqüência, aliás extraordinária, de uma caçada. Faço essa confissão com certa vergonha, pois hoje La régle du jeu é para mim (e para muitos) não só a obra-prima de Renoir, mas o melhor filme francês e um dos melhores do mundo.”

“Com efeito, os primeiro críticos da fita, levados pelas idéias convencionais que haviam estabelecido em relação a Renoir, limitaram-se a ver em La régle du jeu uma sátira ao comportamento humano da classe dirigente francesa. Não há dúvida de que a regra do jogo é a mentira, é a hipocrisia necessária para o equilíbrio das relações entre membros de uma burguesia aristocratizada e alienada pelo lazer, e que a não observância da regra conduz a catástrofes. Mas esse é um lado do díptico, a metade da fita. Na outra, desenvolvida paralelamente e de igual importância, os personagens são os empregados cujo estatuto popular não impede que fiquem presos, tanto quanto os patrões, ao mecanismo impiedoso e desumanizador da regra. Os ecos sociais da fita são amortecidos por um pessimismo global e profundo em relação à natureza humana. Diferentemente, porém, de Stroheim, um dos seus mestres, Renoir tem simpatia por todos os personagens, suas falhas, hipocrisias e ridículos. [...] Renoir acumplicia-se com as razões de cada um, não julga individualmente ninguém, mas é ao mesmo tempo implacável com todos.” (EMILIO, P. Crítica de Cinema no Suplemento Literário, v.1, p.332 e p.335, Rio de Janeiro, Paz e Terra/ Embrafilme, 1982. 2vols.)

A Linha Geral (União Soviética – 1928) Dir. Sergei M. Eisenstein

Duração: 96 min. DVD

Sinopse: Com o aparecimento da camponesa Marta, destacando-se na liderança sobre a massa, o filme dá uma reviravolta, embora o filme gire em torno da coletivização de uma aldeia de camponeses.

“A intenção consciente de Eisenstein era fazer ateísmo, porém o gosto pelas formas, o ritmo singular, com algo de dignidade e do esplendor de um cerimonial religioso, obtido pela montagem, e provavelmente sua fascinação latente pelo fenômeno do misticismo, dão à cena uma amplidão e uma ressonância que escapam certamente aos objetivos originalmente procurados. Acaba-se com a impressão curiosa de que, excetuando o padre, que é tratado de maneira irônica, todos – autor e personagens – comungam no êxtase.”

“A cena mais célebre do filme, a estréia da desnatadeira de leite, tem também alguma coisa de religiosa e ao mesmo tempo de erótica. Na União Soviética encorajava-se a dignificação artística dos objetos prosaicos portadores de progresso, mas Eisenstein foi além, tentando de certa forma dar uma aura sacra à batedeira mecânica de leite. Ele escreveria mais tarde: ‘Não é o Santo Graal que inspira a dúvida e o êxtase, mas uma desnatadeira.’” (EMILIO, P. Crítica de Cinema no Suplemento Literário, v.1, p.225 e p.256, Rio de Janeiro, Paz e Terra/ Embrafilme, 1982. 2vols.)

Nascimento de Uma Nação. (Estados Unidos - 1915) Dir. D. W. Griffith

Duração: 187 min. DVD

Sinopse: Durante a Guerra Civil americana, o filme conta a saga de duas famílias, uma do norte e uma do sul. Obra considerada polêmica por seu conteúdo racista, já que coloca a Klu Klux Klan como importante no papel de insurreição do “estilo de vida” do sul após perder a guerra.

“Se considerarmos o cinema simultaneamente em seus diversos aspectos, como linguagem, arte, indústria e expressão social, Griffith é incontestavelmente a mais poderosa personalidade de toda a sua história. Ele foi o principal artesão das normas básicas do novo meio de expressão e o primeiro a utilizá-las com fluência e de forma coerente; entre seus filmes [...]; foi Nascimento de Uma Nação que despertou o interesse da alta finança pela nova indústria e a tomada de consciência pelas elites políticas e religiosas da América do poder do cinema em suscitar emoções e modelar a opinião.”

“Penso que a situação é clara. Como algumas de suas declarações o demonstram, Griffith reconhecia o valor artístico do filme, mas para ele pessoalmente o cinema era como uma das invenções miraculosas com que sonhara na juventude, capazes de enriquecer rapidamente um homem e dar-lhe em seguida tranqüilidade para realizar seu destino artístico.”

“Griffith só compreendeu seu destino quando este estava fundamentalmente realizado, isto é, por ocasião do lançamento de Nascimento de Uma Nação. Em última análise, a obra teve para o seu autor um papel semelhante ao que exerceu frente aos contemporâneos: revelar a grandeza do cinema.” (EMILIO, P. Crítica de Cinema no Suplemento Literário, v.1, p.361 e p. 365, Rio de Janeiro, Paz e Terra/ Embrafilme, 1982. 2vols.)





segunda-feira, 3 de setembro de 2007

Basic Jazz












Mais um programa especial. Depois de um longo período de ausência, resolvi fazer um set só de pedradas jazzísticas com grandes clássicos da música norte-americana. Ressaltando que não houve uma intenção em delimitar estilos, seguir o desenvolvimento cronologicamente de forma linear, a única preocupação foi selecionar grandes instrumentistas e orquestras em seus períodos mais profícuos, mais nada.

Assim, começo com a mais pesada de todas as Big Bands, Count Basie e seus companheiros de várias noitadas em Kansas City, vale lembrar que uma das maiores lendas do jazz, Lester Young foi o sax tenor de Basie, refererência absoluta de dez entre dez saxofonistas de jazz, de Charlie Parker à Sonny Rollins e Coltrane, vale à pena notar o vigor dos seus solos arrasadores e sempre bem acompanhados por Basie. Para quem quiser se aprofundar mais, indico o filme de Robert Altman, Kansas City, onde vocês poderão acompanhar as noites conturbadas e quentes da cidade em questão, a trilha sonora do filme fica por conta de Count Basie Orchestra ( interpretada por excelentes músicos )que toca às noites todas no club subterrãneo da cidade. O filme trás ainda um duelo insano entre Lester Young e Coleman Hawkins, - a outra grande referência dos saxofonistas de jazz -, confronto este assistido por ninguém menos que um menino, cujo sobrenome é Parker e que logo viria a ser um dos maiores jazzman do século. A faixa que aqui apresento de Basie é Every Tub do álbum Basie Boogie.

Outro grande nome do Jazz, Duke Ellington, vem na seqüência, com grande sensibilidade e peso, Boo Dah é um estrondo suave e noturno que com solos metálicos compõem uma obra prima verdadeiramente moderna e norte-americana.

J. J. Johnson é representado aqui com a faixa Neo, com seu potente trombone é acompanhado por Harold Mabern no piano, Arthur Harper no baixo e Frank Gant na bateria. Neo é uma inegável evidência (Proof Positive) de que o jazz, a despeito das críticas acadêmicas, consolidou-se como um estilo autêntico e legítimo da música contemporânea.

Em seguida, uma faixa de um dos discos que considero um dos dez mais importantes da história do Jazz, a faixa é Dear Old Stokholm, o álbum é Round About Midnight e os interpretes; John Coltrane – sax tenor, Red Garland – piano, Paul Chambers – baixo e Philly Joe Jones na bateria, são liderados pelo mais sensível trompetista e bandleader da história do jazz , Miles Davis.

Já que Coltrane aparece na faixa anterior, nada melhor do que uma composição em que este aparece liderando seu próprio quarteto, em uma das suas fase mais profícuas e originais, Coltrane compõe Song of the Underground Railroad. Aqui a música é executada por Coltrane no sax tenor, McCoy Tyner no piano, Reggie Workman no baixo, Elvin Jones na bateria, e uma curiosidade todas as faixas deste álbum, The Complete Afrika/Brass Sessions, são conduzidas por Eric Dolphin.

Continuando nossa agradável viagem por esta estrada férrea e sinuosa jornada nos deparamos com outro mestre, Charles Mingus e uma pedrada atordoante, Boogie Stop Shuffle, com o peso e a exuberância única de Mingus que avança com ritmos inusitados. Infelizmente, não posso colocar o trabalho todo, mas fica aqui indicado outro disco fundamental do Jazz, Mingus Ah Hum, sua audição é obrigatória.

Agora quem se apresenta por meu intermédio é Sonny Rollins, um dos grandes saxofonistas dos 50-60. Um artista inquieto sempre recriando-se a si mesmo sem se diluir em suas recriações. Solos objetivos e swingados, espirituais e extrovertidos que apresentam um músico conseguindo equilibrar os mais antagônicos paradoxos. Acompanhado por músicos do porte de Max Roach na bateria, Tommy Flanagan no piano e Doug Watkins no baixo compreendemos que a música é uma linguagem capaz de estabelecer a comunicação e a sintonia entre almas de uma modo que possivelmente nenhuma outra linguagem pode fazer.

Finalizando, um dos nomes mais injustiçados da história do jazz, pouco reconhecido, morto jovem, talento precoce. Lee Morgan é um nome que rivalizaria com o próprio Miles davis, se este é agraciado com uma sensibilidade única, Lee Morgan é detentor de uma precisão inigualável. O brilho dos solos de trompete inconfundível foi apagado em 19 de fevereiro de 72, morto pela amante com um tiro no coração, morreu sobre o palco, sendo seu último sopro uma nota expelida pelo trompete. Aos 33 anos deixou um fértil legado que aos poucos estou conhecendo. Acompanhado por nomes como Wayne Shorter, sax tenor, Grant Green na guitarra e Herbie Hancock no piano criaram o álbum Search for the New Land, outra pérola recomendada a todos.

Bem, fico por aqui e espero que gostem da novidade, ficaria mais feliz ainda se deixassem suas opiniões e sugestões sobre um podcast, agradeço a visitae as sugestões.

Falou.

1. Count Basie – Every Tub
2. Duke Ellington - Boo Dah
3. J. J. Johnson – Neo (Proof Positive -
4. Miles Davis Quintet – Dear Old Sotckholm
5. John Coltrane Quartet – Song of the Underground Railroad
6. Charles Mingus – Boogie Stop Shuffle
7. Sonny Rollins – Strode Rode
8. Lee Morgan – Mr Kenyatta




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